quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A escola deve ir onde o povo está


Brasil de Fato


A escola deve ir onde o povo está
por Michelle Amaral da Silva última modificação 26/02/2009 15:58
Em entrevista, a mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Isabela Camini, derruba mitos sobre as escolas em acampamentos sem terra, as chamadas escolas itinerantes

26/02/2009
Raquel Casiraghi
Porto Alegre (RS)
Agência Chasque
A mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Isabela Camini, atua há 12 anos nas escolas dos acampamentos sem terra. A pedagoga acompanha a trajetória das chamadas escolas itinerantes desde o reconhecimento pelo Conselho Estadual de Educação gaúcho em 1996. Isabela também ajuda no setor de Educação do Movimento Sem Terra (MST) e nas escolas em outros estados, como Paraná e Santa Catarina.
Em entrevista, ela fala sobre a importância da escola e desmente alguns mitos, como a formação pedagógica. Também lamenta a atitude do Ministério Público e da governadora Yeda Crusius de fechar as escolas.
Que diferenças têm as escolas itinerantes em relação às convencionais da rede pública?
Quando nós falamos em escola itinerante ela já se diferencia por ser uma política pública de escola que respeita a caminhada, a realidade e a luta dos trabalhadores. Porque lutar pela reforma agrária e pela terra já é um direito garantido pela em nosso país pela Constituição. E a luta pela reforma agrária do MST é uma luta em família. Portanto, as crianças e as mães estão juntas nos acampamentos, nas marchas. A escola deve estar onde o povo está e não o povo ir onde a escola está. Porque do nosso ponto de vista seria muito complicado crianças de centros urbanos serem obrigadas a estudar na zona rural. E o contrário é verdadeiro. As nossas crianças entrarem no ônibus e estudar na cidade é bastante complicado. Ela se diferencia porque ela respeita a cultura e a realidade do povo que está em marcha buscando uma melhor qualidade de vida.
Qual é o conteúdo programático que as crianças têm acesso nos acampamentos?
O conteúdo trabalhado nas escolas itinerantes ainda é um conteúdo baseado praticamente nos livros didáticos que estão aí espalhados nas escolas. Claro que sempre tem um diferencial porque uma escola em um acampamento ou uma marcha existe todo um conteúdo latente que é a prática social. Os acontecimentos, os fatos do dia-a-dia vão acompanhando essas comunidades acampadas e interferindo na escola. Por exemplo, uma ocupação. É evidente que é um conteúdo latente e que dá para trabalhar a ocupação no português, na matemática, na história, na geografia e assim por diante. Uma desocupação, por exemplo. Também os educadores trabalham o conteúdo programático levando em conta essa prática social, essa realidade que invade, que é conectada à escola, porque eles não podem ignorar essa realidade porque nenhuma escola ignora a realidade do seu sujeito, que são os alunos.
O procurador de Justiça Gilberto Thums acusa a escola itinerante de ideológica. Como vês essa crítica?
Também acredito que a escola conservadora, a escola capitalista, a escola tradicional, ela historicamente desde o século XV foi pensada e requerida pela classe burguesa. Portanto, ela foi conduzida a serviço da burguesia, portanto ideológica também. Agora é claro, quando os trabalhadores pensam em tomar a escola pública e trabalhar algum conteúdo que venha da realidade e que não é nada novo, porque Marx não caiu da moda, continua atual em algumas correntes da filosofia, aí então são chamadas de ideológicas. Por exemplo, o Estado está preocupado em preparar uma relação de conteúdos, um currículo único para todas as escolas do RS e dando às escolas apenas o trabalho de ensinar. Isso, no nosso ponto de vista, também é ideológico. Trabalhar a realidade, levar a prática social que bate às portas da escola e transformar isso em conteúdo nas várias áreas, os movimentos sociais não podem ser condenados por isso.
A educação oferecida na escola itinerante é de qualidade?
A criança que se prepara em uma escola itinerante se prepara muito bem para o mundo. Muitas vezes, muito melhor do que uma escola fixa, fechada e submetida a um conteúdo já pensado historicamente pela classe dominante. No entanto, se o estado tivesse assumido sua responsabilidade de manter as escolas itinerantes com as aquelas condições que tinha se comprometido lá em 1996 a escola deveria ter funcionado melhor nas suas condições físicas e pedagógicas. Aí é claro que prepararia muito bem a criança para viver e enfrentar a sociedade. Mesmo sem as condições, porque o estado não assumiu a sua responsabilidade; deixou as escolas sem lona, os educadores sem salário e formação, as crianças sem material escolar. É claro que a escola foi caindo na qualidade, mas estrutural. As questões pedagógicas como os educadores, a própria formação foram garantidos pelo movimento mas em condições muitas vezes desumanas e precárias.
Como recebeste a decisão do fechamento das escolas pelo Ministério Público e pela governadora Yeda Crusius?
Pessoalmente, considero um grande equívoco por parte da SEC [Secretaria Estadual da Educação] e do próprio Ministério Público em retirar o direito das crianças e dos adolescentes de estudarem a partir da sua realidade. Porque tanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional quanto as concepções escolares das escolas do campo garantem que as escolas devem estar onde estão as comunidades. E não as comunidades se deslocar até onde estão as escolas. Acredito que não vai ter sustentação as escolas serem matriculadas em escolas municipais ou estaduais fixas porque a luta pela terra mantém uma itinerância, o acampamento não permanece no mesmo lugar durante um ano, dois anos. A todo momento essa criança pode estar sendo transferida de uma escola para outra. Vai acontecer que muita criança vai evadir e reprovar porque ela não tem o tempo definitivo para permanecer na escola.
Passados 12 anos de experiência da escola sem terra no Rio Grande do Sul, o que avançou na sua opinião?
Em primeiro lugar, acho que ela avançou significativamente porque ela teve vida há 12 anos. O MST se mostrou à sociedade na luta pela terra garantindo o direito a ter escola e a ter a família e as crianças lá junto no acampamento. Ela avançou significativamente porque escolarizou um grande número de crianças sem terra que poderiam estar nas ruas das grandes cidades, aumentando o número de crianças e de adolescentes que estão nas ruas abandonadas. A escola itinerante no RS foi referência para criar escolas itinerantes no Paraná, Santa Catarina, Goiás, Alagoas e Piauí. Todos estes estados vieram buscar a experiência e a referência da escola itinerante aqui no estado. E agora exatamente este estado que serviu de referência para os outros cinco estados, ele tira o direito das crianças de estudarem nos acampamentos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Universidade, Pública?

Mais um ano, mais um vestibular da FUVEST e novos alunos, escolhidos dentro de uma seleção rigorosíssima, adentram os muros da universidade com as suas expectativas e seus sonhos.
Lá dentro se depararão com todos os dilemas e vicissitudes de uma universidade que se transforma a cada dia, mas que também convive com antigos dilemas, alguns dos quais ela não necessariamente os vê como de sua inteira responsabilidade.
Entidade de produção científica de alto rigor, invejada pelas melhores universidades do país, pode se encontrar em uma situação difícil quando chamada pela sociedade civil a responder algumas perguntas, tais como: o porquê de seu elitismo e a distância que a separa da sociedade.
A primeira pergunta pode ser mais facilmente respondida e é por ela que creio que deva começar. Acesso difícil através de um rigoroso vestibular, aliada às carências do ensino básico nas escolas públicas, é a fórmula mágica para a elitização.
Fora isso, devemos também lembrar uma questão fundamental da hegemonia da economia de mercado: o tempo. Esse tempo infalível e cronometrável não dá sossego àqueles que precisam de tempo para estudar quando o seu tempo está marcado/regulado pela venda de sua única mercadoria, a sua força de trabalho.
Assim, cursos de período integral invariavelmente são excludentes em sua natureza.
Não digo que não devam existir, entretanto, por que não abrir as portas da universidade em horários alternativos, melhor dizendo, no período noturno, proporcionar também cursos que são oferecidos matutina e diurnamente? Ainda que para isso seja necessária uma readequação da grade sob o aspecto de tempo ideal para a conclusão de curso.
Em relação ao distanciamento, creio que várias sejam as distâncias que separam a universidade da sociedade. Vou começar pela mais simples e por aquela que diz respeito à gestão pública fora da universidade: ela não foi concebida geograficamente para fácil acesso, melhor dizendo, para aqueles que não possuem automóvel. Mais um traço elitista? Pode ser, no entanto, o que não é mais possível é pensar numa universidade não inserida na metrópole e que não disponha de transporte coletivo público eficiente para o seu acesso.
A outra distância vem de algo que percebi. Parece haver uma desconexão entre o dia-a-dia do campus e o mundo além de seus muros. A falta de comunicação aumenta essa distância que se traduz numa sensação de impossibilidade de tradução do cotidiano da sociedade.
Por fim, existe o distanciamento da universidade em relação às pessoas que não possuem vínculo direto com ela. O medo, vandalismo, a necessidade desmedida de segurança tornaram-na praticamente um condomínio fechado. E o que é pior: num espaço que deveria ser público em sua essência. O espaço de acesso, ruas, avenidas, deveria estar garantido para que todos pudessem realmente ver o papel que a universidade desempenha no aprimoramento da ciência e na difusão da cultura. Essa seria a melhor estratégia de propaganda que a universidade poderia oferecer para si mesma. Afinal, quanto a isso, ela não tem do que se envergonhar.

Já esta na hora, ou melhor já passou da hora da USP estourar essa bolha que à separa da sociedade, os trabalhadores necessitam ocupar esse espaço que também é nosso, afinal a USP é mantida com os impostos que nós também pagamos.

Sabemos que para ingressar nas universidades públicas necessitamos frequentar um curso pré vestibular, que na sua maioria das vezes os trabalhadores não tem como pagar, invibializando assim o seu ingresso nas universidades, infelizmente é assim, não tem vagas para todos e também não sei se é do interesse da burguesia que haja vagas para todos.

Por isto o Projeto Ipês, disponibiliza um curso pré vestibular possibilitando que os trabalhadores tenham possibilidade de ingressar nas universidades públicas, vamos nos organizar e enfrentar esse problema de frente, tenho certeza que os alunos das escolas públicas tem as mesmas condições de aprendizado, e tendo um incentivo de um cursinho estarão preparados, e no final do ano terão uma boa chance de competir por igual nas universidades , além disso existe o Pro uni que também pode ser uma boa.
Vamos criar vários Cursos Pré vestibulares em todas as comunidades.

"Num país em que jovens envelhecem do lado de fora das cercas e dos muros da universidade, queremos, primeiro, dividir o direito de sonhar com ela. depois, o direito e a responsabilidade de transformá-la"
Paulo Freire



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Mentiras da Folha

Intelectuais lançam manifesto em repúdio à 'Folha'
Um grupo de intelectuais lançou, neste sábado (21), um abaixo-assinado na internet (ipetitions) em repúdio à Folha de S.Paulo. O manifesto protesta contra um editorial publicado quatro dias antes pelo jornal, que fez tábula rasa das atrocidades da ditadura militar (1964-1985) e classificou o período como "ditabranda".
O texto condena "o estelionato semântico manifesto pelo neologismo 'ditabranda' e, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pos-1964". Segundo os signatários do manifesto, "a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do pais".
Outra motivação do abaixo-assinado foi prestar solidariedade aos professores acadêmicos Maria Victória de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato, cuja legítima indignação ao editorial foi tachada de "cínica" e "mentirosa" pela Folha. "Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro", diz o texto.
Leiam, assinem e divulguem o manifesto.
REPÚDIO E SOLIDARIEDADE
Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio a arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do pais. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história polí­tica brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pos-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victória de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis a atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.
Assinam:
Antonio Candido, professor aposentado da USP Margarida Genevois. Fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos Goffredo da Silva Telles Júnior, professor emérito da USP Maria Eugenia Raposo da Silva Telles, advogada Andréia Galvão, professora da Unifesp Antonio Carlos Mazzeo, professor da Unesp Augusto Buonicore, doutorando da Unicamp Caio N. de Toledo, professor da Unicamp Cláudio Batalha, professor da Unicamp Eleonora Albano, professora do IEL, Unicamp Emir Sader, professor da USP Fernando Ponte de Souza, professor da UFSC Heloisa Fernandes, socióloga Ivana Jinkings, editora Marcos Silva professor titular da USP, Sérgio Silva, professor da Unicamp Patricia Vieira Tropia, Universidade Federal de Uberlandia Paulo Silveira, sociólogo