sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Proteste Lute va as ruas

Repressão policial atiça protesto contra aumento de ônibus em SP


Por Jadson Oliveira, 18.02.2011

Vinicius, assistente social, foi agredido por policiais, preso e será submetido a uma cirurgia. Foto: Reprodução.




 













A queima da catraca simbolizou a luta pelo passe livre. Foto: Jadson Oliveira.






Vinicius, assistente social, foi agredido por policiais, preso e será submetido a uma cirurgia. Foto: Reprodução.

Se a polícia não tivesse atacado os manifestantes, a maioria estudantes secundaristas e universitários, certamente seria mais um protesto de rua – e não dos maiores e mais relevantes – contra o reajuste das tarifas de ônibus e do metrô em São Paulo, movimento que pretende ter caráter nacional, já que vem ocorrendo em outras capitais importantes do país. Ontem, quinta-feira, dia 17, foi o chamado Dia Nacional de Luta pelo passe livre e contra o aumento das tarifas e os estudantes se concentraram, a partir das 5 horas da tarde, no Viaduto do Chá, em frente da prefeitura.
Nos primeiros 90 minutos (mais ou menos) foi uma manifestação pacífica, em torno de mil pessoas, dentro do tom costumeiro em tais eventos, com os jovens destilando energia e entusiasmo, com seus cartazes e bandeiras, seus ousados slogans e chamamentos: “Vem também pra rua contra o aumento, vem!”, “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, “Sai do chão, sai do chão, contra o aumento do busão”, “Três, três, três reais não dá, eu quero passe livre, passe livre já!” (no dia 5 de janeiro a passagem de ônibus passou de 2,70 para 3,00, enquanto a do metrô, no dia 13 de fevereiro, subiu de 2,65 para 2,90). Deram um jeito de atear foto a uma catraca, semelhante às usadas nos ônibus, para simbolizar a luta pelo passe livre. Um dos líderes, que agitavam a massa com rápidos discursos pelo megafone, profetizava: “Só as ruas podem retirar este aumento”.
Antes da violenta repressão, os manifestantes estavam contidos por barreiras policiais (além da cerca de grades) pela frente e por trás. O trânsito no Viaduto do Chá estava livre. Foto: Jadson Oliveira.
Mas, aparentemente, o prefeito Gilberto Kassab e/ou outras autoridades acharam um desaforo esta forma democrática (e pacífica) da sociedade se manifestar publicamente. “Afinal, para que temos o poder de polícia?”, devem ter pensado. E os policiais, incluindo um pelotão de choque, investiram contra os manifestantes, na base de golpes de cassetete, spray com gás pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral (entre os manifestantes corria a informação de que a PM teria feito também disparos com balas de borracha). Foi aquela correria aos gritos de “covardes, covardes!” e “filhos da puta, filhos da puta!”. Um rapaz reagiu, entrou em luta corporal com os repressores, deu uns murros em alguns e terminou dominado e algemado por uns três ou quatro PMs.
O vereador José Américo leva a mão aos olhos atingidos pelo ardor do gás de pimenta. Jadson Oliveira.
Três vereadores petistas – José Américo, Antônio Donato e Juliana Cardoso – entraram na confusão tentando aplacar a fúria dos policiais. Sofreram muitos empurrões e algumas bordoadas. José Américo, o mais destemido, passou maus momentos com jatos de gás pimenta na cara. Ficou com os olhos inchados, mas se manteve firme. Anunciou aos jornalistas que faria uma representação contra o comando da operação, lembrando inclusive que os agentes da repressão se negaram a se identificar. (Sobre o gás pimenta, sobrou um pouco para mim: tive uma incômoda sensação de ardor nos olhos, mas passou rápido. Depois, não sei bem como e por que, fiquei sentindo ardor nas pernas – estava de bermuda -, como se tivesse sofrido uma queimadura leve).
Outro vereador, também do PT, conhecido como Alfredinho (Alfredo Alves Cavalcante), esteve presente em toda movimentação. Teve, porém, uma reação mais acomodada. Falei com ele sobre a situação do rapaz preso e algemado, o qual ficou pelo menos uma meia hora sentado junto ao prédio da prefeitura, na frente, no espaço dominado pelos policiais, ao qual os manifestantes não tinham acesso (a frente do prédio esteve o tempo todo protegida com uma cerca de grades, além da barreira formada pelos PMs, atrás das grades). Perguntei a Alfredinho, que estava sempre no espaço dos policiais, isto é, atrás das grades, qual era o nome do rapaz. Disse que não sabia.
- Mas o rapaz está ali sentado este tempo todo, algemado, como é que fica? Ele vai ser levado pra prisão? Tem um advogado que está cuidando dele, disse o vereador.
- Quem é o advogado, como é o nome dele?
- Não sei, é um advogado do pessoal aí, respondeu, referindo-se aos manifestantes e comentando que ele seria levado a um hospital para ser medicado.
Os ataques do pelotão de choque atiçaram o ânimo dos estudantes: eles corriam pelo Viaduto do Chá, xingavam e voltavam no meio das nuvens de fumaça das bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Foto: Jadson Oliveira.
Depois de uns 30 minutos, o rapaz, sempre algemado, foi levado num carro da polícia. Seu nome é Vinicius Figueira, estudante, estava com a camisa manchada de sangue. Um repórter da revista Carta Capital conseguiu falar com ele quando entrava na viatura e me passou sua identificação.
A partir do ataque da polícia, os estudantes – havia entre eles, em pequeno número, metroviários e ferroviários – se espalharam pela rua, sempre em frente da prefeitura, mas então cortando o trânsito de carros no Viaduto do Chá. Até a repressão policial, o trânsito não havia sido impedido, pois os manifestantes estavam contidos entre as grades e outra barreira de policiais, com motos, no início do asfalto. Ou seja, o trânsito no Viaduto do Chá estava livre. Isto contradiz um oficial da PM que, ainda no meio da confusão, tentava explicar aos vereadores que “a manifestação é legítima”, mas eles não podiam permitir que a população fosse impedida de se locomover na cidade.
A partir também da repressão policial, os estudantes, óbvio, se exaltaram mais, alguns lançaram objetos contra os PMs, como sacos de lixo e até um guarda-chuva, coisas sem qualquer relevância do ponto de vista de agressão ou ataque. E entraram pela noite, com toda energia que a natureza sabe brindar à juventude, pulando, fazendo barulho, com batucada e vuvuzelas. E lançando seus gritos de guerra, aos quais acrescentaram mais um: “Kassab, vai tomar no c…” Enquanto isso, os policiais mantinham sua barreira na frente do prédio e o pelotão de choque se afastou um pouco, perfilando-se no início da Praça do Patriarca. O quadro era este já passando das 9 horas da noite.
Dentro do prédio, no salão da entrada, seis estudantes faziam um protesto singular, segundo relatavam os companheiros: se mantinham desde a manhã acorrentados às catracas que dão acesso aos elevadores do edifício (o jornal Folha de S.Paulo noticiou hoje que os seis encerraram o protesto e deixaram o prédio da prefeitura por volta das 10 horas da noite). De acordo com os estudantes, foram divulgadas fotos dos acorrentados no sítio do Facebook da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel).
E os milhares de transeuntes daquela movimentadíssima área da capital paulista foram para casa ontem com panfletos falando da luta, da importância da participação do povo e da tentativa de negociação (até ontem frustrada). Além da Anel, assinam os panfletos entidades como Comitê de Luta contra o Aumento da Passagem, Movimento Passe Livre, DCE-Livre da USP, Secretaria Municipal de Juventude do PT, Sindicato dos Metroviários, Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana, Central Sindical e Popular CSP-Conlutas) e Intersindical.

(*) Nota do editor: Vinicius Figueira é assistente social, servidor público do município de São Paulo, e está internado no Hospital do Servidor Público e Municipal onde será submetido a uma cirurgia.




O que é o lulismo, acho que eu já sabia








O professor Rudá Ricci, da PUC-MG, dá uma entrevista polêmica na “Caros Amigos” que chega às bancas nesse fim-de-semana. Ele diz que o lulismo “odeia a participação popular”.

por Tatiana Merlino, na “Caros Amigos”

Caros Amigos – O que é o lulismo e como ele se manifestou durante o governo Lula?
Rudá Ricci – O lulismo é um sistema de gerenciamento do Estado e de políticas públicas. Portanto, não é uma ideologia, não é um movimento. Ele moderniza economicamente, mas é conservador do ponto de vista político, o que a gente chama em ciência política de modernização conservadora. E ele se montou como nos EUA o fordismo se montou no século passado. Aliás, os dados de ascensão social no Brasil são muito parecidos com os dados da ascensão social dos Estados Unidos desse período. Eu acho que é um fordismo tupiniquim, com um Estado muito forte e centralizador. 65% do orçamento público está concentrado na execução da União. Os municípios brasileiros dependem, em sua maioria, de convênios estabelecidos com ministérios. Ele usou como mecanismo de suporte social e desenvolvimento os recursos do BNDES, o PAC e as obras públicas e, com isso, conquistou o grande empresariado nacional. Todos os grandes conglomerados
têm financiamento com o BNDES. E, na outra ponta, há, principalmente no aumento real do salário mínimo, a grande política de ascensão social no Brasil. Depois dela, vem o crédito consignado e, depois, o Bolsa-Família, que tirou da pobreza mas não gerou uma grande ascensão social, principalmente para os pobres se tornarem classe média, classe C. E aí vem a base do lulismo. E aí tem o suporte político. De um lado, a coalizão presidencialista, que é algo inédito no Brasil. O Getúlio Vargas até tentou montar algo, mas o Estado Novo acabou destruindo o que ele tentava forjar. Nós não tivemos na história republicana nenhuma situação parecida com a atual. O Brasil desmontou o sistema partidário, criou uma coalizão de tipo parlamentarista e jogou a política do Brasil entre governistas e não governistas, mas não é qualquer governismo, é lulista ou não lulista. E os partidos de oposição estão completamente em frangalhos, tanto PSTU quanto Psol de um lado, que não conseguem em somar com todos os partidos de esquerda 1% da intenção de voto nacional, e de outro, direita, o PSDB e o DEM; o primeiro num de mus momentos de maior tensão interna, a ponto e muitas lideranças falarem em refundação, e o segundo praticamente destruído com a saída do Gilberto Kassab. A última ponta é a do financiamento pelo Estado das organizações populares no país, principalmente as centrais sindicais.
Caros Amigos – O senhor afirma que o Lula finalizou a modernização conservadora iniciada pelo Getúlio Vargas. Como isso aconteceu?
RR – O conceito de modernização conservadora é da sociologia e foi elaborado por um autor chamado Barrington Moore. Atualizando isso para o caso brasileiro, significa que se faz uma modernização econômica sem mudar de maneira alguma a estrutura de poder, ela é conservadora nesse sentido do poder. O Lula articulou todas as lideranças clientelistas do Brasil, assim como Getúlio fez isso. A impressão que se dava do Getúlio era que ele estava atacando toda a base clientelista, dos coronéis, mas muitos deles foram recriados através do getulismo. O Lula recriou a mesma estrutura de poder.
A marca do getulismo e do lulismo é a conciliação de interesses e não o enfrentamento. Um exemplo é que se tem o Ministério da Agricultura de um lado, tem o do Desenvolvimento Agrário do outro. Isso não é por acaso. Se o Getúlio criou a base da industrialização do país com um Estado organizado a partir de uma estratégia desenvolvimentista e gerou a urbanização acelerada do país, o Lula deu o passo final, que é a emergência de um mercado consumidor de massa, da organização do investimento dos empresários através do PAC.
CA - O lulismo é um neogetulismo?
RR - É um neogetulismo sem o autoritarismo do Getúlio. É uma espécie de síntese didática. O lulismo completa o getulismo. Por isso que o Lula é o líder da classe C. Ele é a expressão do sucesso dos pobres. E ele soube usar isso.
CA - Na sua perspectiva, o governo Dilma será mais conservador que o Lula?
RR – Na política, sim, não sei na economia. Até agora a Dilma está sendo a expressão da história dela, uma pessoa que veio da Polop, que era, nos anos de chumbo, talvez a organização mais intelectualizada. Depois, ela vai para organizações de luta armada que tinham alta centralização e disciplina política, e depois ela foi para o PDT. Ela junta essas coisas. A Dilma não é uma pessoa da rua, ela é muito técnica, não tem a história e o discurso do PT. Isso está muito evidente, ela tem objetivos, é muito centralizadora, adota mecanismos de gestão que vem do alto empresariado brasileiro, e isso é uma ruptura com o lulismo. E eu não acho que o Lula está achando isso ruim, pois ele volta com tudo depois.
CA – Qual é o seu balanço do governo Lula? O que houve de positivo e negativo?
RR – O grande mérito do governo Lula é que ele fez o país se reencontrar consigo mesmo. A ideia de que o gigante estava adormecido… não está mais. O Brasil é uma potência, está cada vez mais evidente para todo mundo. Já somos o segundo da América, somos mais ricos que o Canadá e o México.
O Lula conseguiu criar uma política de estabilidade, que está assentada numa forte profissionalização da ação do Estado na economia. Houve um aumento da capacidade e a confiança nos agentes econômicos, como o Banco Central, o Ministério da Fazenda, do Planejamento, eles sabem operar com as técnicas de mercado e controlam mesmo a economia. Com todos os ataques aos BNDES, ele foi um fomento ao desenvolvimento. A segunda grande vantagem do governo Lula foi articular uma intenção social de inclusão de massa com desenvolvimento, algo que a gente não via há muito tempo no Brasil. Talvez a última vez que a gente ouviu isso foi antes do golpe de 1964. Efetivamente, quem juntou as duas coisas foram João Goulart e Lula. E, finalmente, a política externa. A política entrou como centro da diplomacia brasileira para valer, e não como habilidade para fazer negócio. Pela primeira vez, a política não foi só para abrir mercado, mas para inserir o país como potência. Acho que o Brasil disputou a América inteira e ganhou.
Com o Irã foi uma vitória, a história da negociação Brasil, Turquia e Irã foi uma “vitória de
Pirro” ao contrário. Ou seja, parecia uma derrota de Pirro, a comunidade e o G7 ficaram muito irritados, mas o Brasil entrou na história agora, sabe negociar. E é um país da América Latina que entrou no Oriente Médio. Eu acho que são três campos muito importantes, que mudaram completamente o país. O que foi ruim? É que parece que para se governar esse país não se pode ser de esquerda. Na gestão participativa de controle social, nós demos um passo atrás. Começamos o governo Lula discutindo o plano plurianual, e nunca mais voltou. O governo Lula deliberadamente rachou o movimento social nas conferências que são cantadas em prosa e versos. Só duas das 60 ou 70 que foram feitas viraram lei.

Obs. – Reproduzi acima pequenos trechos da entrevista, que ocupa três páginas na nova edição da revista. Vale a pena conferir, nas bancas. Também há uma ótima entrevista com Tom Zé, além de artigos sobre Cuba, Egito… Enfim, muita coisa boa.
retirado do site: vi o mundo