BANALIZAÇÃO
(...) Se uma pessoa querida vai para a mesa de cirurgia, ficamos em sobressalto. A equipe médica, porém, abre o crânio, corta o peito, manipula o coração ou os intestinos do paciente, com a mesma tranqüilidade com que os funcionários do Instituto Médico legal lidam com cadáveres destroçados num acidente aéreo ou sufocados pela lama de um desabamento.
Suponho que o convívio diário com certas situações acabe por embotar-nos a sensibilidade. Aos poucos, a dor alheia soa como uma ranger de porta, o horror vira rotina, a morte do próximo é vista como página virada. É a banalização da tragédia. Para suportá-la, procuramos revesti-la de comédia.
A televisão nos submete ininterruptamente a um aluvião de acidentes, assassinatos, guerras, hordas famintas e esquálidas agarradas aos ossos saltados de seus filhos. Nada disso tira o nosso sono nem provoca a nossa indignação. Aos poucos, vamos admitindo que essa é a normalidade, talvez um erro humanamente justificável como as bombas atiradas sobre crianças e idoso na Iugoslávia. Apenas um nó de tristeza por ver o mundo tão injusto e cruel.
A televisão domestica-nos para bem conviver com a tragédia, carnavalizando situações aberrantes e exibindo no palco deformações de corpo e espírito como se fossem meras atrações de interesse público. Torna-se rotina ver a face que desabona os políticos: as diatribes do ministro, a corrupção do deputado, as fanfarronices do senador, a mentira do prefeito, a demagogia do governador, o cinismo do presidente.
Assim, aos nossos olhos, molda-se a impressão de que a política é sempre suja, todos os políticos são malandros, o processo eleitoral uma farsa. Desiludidos, recolhemo-nos a nossa vida privada, indiferentes à tudo.
Tudo se banaliza, a ponto de ocorrer uma inversão em nosso enfoque: danem-se os direitos coletivos, as causas sociais, os valores e os ideais. O que importa é o chicote da mascarada, a privacidade da dançarina do tchan, a filha da rainha dos baixinhos, o féretro da princesa que enterra a nossa ilusão de que a vida, para nobres e ricos, é sempre bela e feliz.
Nas ruas tropeçamos em mendigos e cruzamos com crianças abandonadas. São moscas na comida. Importam menos que uma dor de dente. Sorte nossa que “Não somos como eles”. Preferimos acreditar que a desigualdade social é como o inverno e o verão: para uns as agruras do frio; para outros, o conforto do calor.
Conta a parábola que certo monge retornava a seu mosteiro. Cruzou no caminho com uma criança maltrapilha, abatida pela fome e pelo frio. Na igreja, vociferou contra Deus, que permitia sofrimentos tão injustos. “Por que o Senhor nada fez por aquela criança?”. De repente, um clarão. Deus mostrou a Sua face luminosa e disse a ele: “Eu já fiz você!”.
(FREI BETTO, Caros Amigos. N.º 28, julho de 1999)
W.Maia
Nenhum comentário:
Postar um comentário